A construção da imagem do “bom trabalhador” português em França par Inês Espirito Santo

Nos anos 1960 e no início dos anos 1970, Portugal testemunhou um dos maiores movimentos populacionais de saída do país. Cerca de 700 000 portugueses chegaram a França nesses anos[1]. Nos anos onde esse fluxo foi mais intenso, mais de dois terços dessas pessoas saíram do país clandestinamente, cuja viagem ficou conhecida pelo nome o “Salto”, perigo do trajeto e pelas más condições de alojamento nos bidonvilles às portas de Paris. Ainda assim a inserção no mercado de trabalho francês nesse período foi facilitada pela conjuntura socioeconómica favorável da França, encontrávamo-nos então no auge dos chamados “Trinta Gloriosos”. Segundo alguns testemunhos de emigrantes chegados a França nesses anos [2], recrutadores com propostas de trabalho esperavam os portugueses na fronteira logo que estes pisavam território francês.

Atualmente, segundo os últimos dados disponíveis, 599 333 pessoas nascidas em Portugal residem em França [3]. Destes, a população ativa tem uma taxa de desemprego bastante baixa quando comparada com outras nacionalidades nesse país. A imagem do português imigrante que se investe sobremaneira no seu trabalho é aceite como característica coletiva da população imigrante portuguesa em França, tornando-se um dos referentes a partir dos quais os portugueses elaboram e falam do seu trajeto migratório em comparação com outros trabalhadores. Um retrato socioprofissional representativo da população portuguesa é facilmente singularizado na paisagem francesa, cujas características principais são um nível de escolarização muito baixo e uma inserção no mercado de trabalho muito segmentada em termos de género e de sectores de atividade, situados na cauda da escala socioprofissional francesa. Esta inserção profissional e chegada maciça ao território francês nos anos 1960/70 encontra-se no âmago de todos os processos de construção das imagens às quais a emigração portuguesa se encontra associada em França, mas ela não constitui o único fator explicativo. Certas instituições, através do seu papel na sociedade, mas também pela influência que exercem sobre o poder político em matéria de imigração, contribuem na modelação de espaços representacionais e, consequentemente, na orientação de certas práticas. É o caso do discurso do patronato francês em relação à população estrangeira.

Convocar as fontes do passado, explorando por exemplo arquivos da Conseil National du Patronat Français (CNPF) [4] pode dar algumas pistas de compreensão sobre a construção de imagens dos portugueses trabalhadores em França. Através de um discurso menos fraturante do que o discurso de algumas instâncias governamentais que diferenciavam numa lógica divisionista os imigrantes segundo uma suposta melhor capacidade de integração dos portugueses em relação aos argelinos, o CNPF deu uma atenção especial aos portugueses a partir da questão do alojamento. Este interesse ganhou força com a polémica que se gerou no início dos anos 1970 em torno da insalubridade dos alojamentos dos portugueses e, sobre a qual a opinião publica apelava à responsabilidade do patronato quanto às condições de habitação dos trabalhadores imigrantes.

A situação dos imigrantes portugueses nos bidonvilles às portas de Paris, embora representasse apenas uma parte dessa população, inspirou a argumentação do CNPF de uma forma particular: os imigrantes portugueses em razão de dispositivos psicológicos preferiam condições medíocres de alojamento em detrimento de investir mais dinheiro na habitação para melhorá-las. O conceito “poupança”, característica por excelência desta população, não deixava assim lugar a nenhuma outra consideração mais material, tal como o problema dos baixos salários e rendas altas, ou ainda a dificuldade de acesso ao processo administrativo de pedido de alojamento social.

Tanto o “regresso” como a “poupança”, constituem um vocabulário que é sistematicamente associado à existência do imigrante, em virtude da sua estadia supostamente provisória no território nacional [5]. No caso da imigração portuguesa, a poupança ocupou um espaço importante, incluindo nas ciências sociais, tornando-se o fator explicativo, por vezes absoluto, das condições de vida e comportamentos dos trabalhadores imigrantes portugueses. O termo “poupança” desdobra-se numa dupla significação: as “economias” feitas à custa de um mau alojamento e ao princípio de vida “trabalhar mais para ganhar mais”. O imigrante português estaria pronto a sacrificar o seu bem-estar, submetendo-se incansavelmente ao trabalho, sem horários. Com o fim da época do pleno emprego, as diretivas, o recrutamento e as políticas diferencialistas entre populações estrangeiras acentuaram-se: mais que trabalhador era necessário ser “bom trabalhador” para guardar o seu lugar na estrutura socioprofissional francesa. Esta engrenagem construiu-se pela demonstração de uma pertença coletiva em oposição a supostos traços culturais das diferentes populações, estando sobretudo associada à gestão discriminatória da mão-de-obra nos sectores de atividade com uma percentagem elevada de imigrantes.

É sempre difícil restituir em toda a sua complexidade o caminho que leva à legitimação da imagem de uma população. As pistas avançadas tornam menos opacos os canais de difusão através das quais a imagem do “bom trabalhador” português em França se difundiu e quais foram as condições que a autorizaram. Elas permitem subtrair a qualidade do “bom trabalhador” ao lugar comum culturalista, segundo a qual a boa performance dos trabalhadores portugueses no trabalho seria profundamente ancorada na sua cultura. Perante as representações dominantes, para aqueles que trabalham no sector da construção ou para aquelas que trabalham no sector dos serviços domésticos, a imagem do “bom trabalhador” tem um sentido prático profissional. É também nestes meios profissionais que as condições de trabalho e a concorrência com outros trabalhadores imigrantes é mais exacerbada, conduzindo à representação do papel que lhes é concedido.

Notas

[1] Recenseamento da população em França, 1975. A França torna-se assim o primeiro destino da emigração portuguesa em detrimento do Brasil que foi durante muito tempo o destino privilegiado. Segundo o recenseamento da população em França de 1975, os portugueses representavam 22% da população estrangeira em França, situando-se em frente dos argelinos que representavam nessa época 20%.

[2] Espírito Santo, I. (2013), Du clandestin au citoyen européen. Quand les immigrés portugais font figure de travailleurs, France 1962 2012, Tese de doutoramento da École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris.

[3] Recenseamento da população em França, 2012. Fonte Observatório da Emigração: <http://observatorioemigracao.pt>

[4] O Conseil National du Patronat Français (CNPF) foi criado em 1945 e tornou-se o Mouvement des Entreprises de France (MEDEF) em 1997.

[5] Sayad, A. (2006), L’immigration ou Les paradoxes de l’alterité : Tome 1, L’illusion du provisoire, Paris: Raisons d’agir.

 

Texte originellement publié dans le blog barometro : http://barometro.com.pt/archives/2051

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1 Comment

  1. Se por um lado é louvável o trabalho e a dedicação dos imigrantes portugueses, bem como a sua imagem de « bom trabalhador ». O cliché de « maçon » ou de « femme de ménage » acaba por dificultar o acesso dos portugueses, com habilitações académicas mais elevadas, no mercado de trabalho. É demasiado redutor associar os portugueses e Portugal apenas às profissões referidas, associação que cria, muitas vezes, situações discriminatórias.
    Seria importante apostar na imagem dos portugueses e das portuguesas, que não são apenas bons « maçons » e femmes de ménage » », são também bons médicos, professores, engenheiros, enfermeiros, juristas,gestores, etc. A nova imigração portuguesa, que chega à França, é diferente da que chegou nos anos 60 e 70.

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