{"id":1398,"date":"2015-04-20T10:48:56","date_gmt":"2015-04-20T09:48:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.memoria-viva.fr\/?p=1398"},"modified":"2015-10-12T16:56:43","modified_gmt":"2015-10-12T15:56:43","slug":"poemes-pour-la-journee-dhommage-aux-deserteurs-du-25-avril-2015","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.memoria-viva.fr\/mv2-archives\/?p=1398","title":{"rendered":"Po\u00e8mes pour la journ\u00e9e d&rsquo;hommage aux d\u00e9serteurs du 25 avril 2015"},"content":{"rendered":"<p>Cette s\u00e9lection de po\u00e8mes a \u00e9t\u00e9 \u00e9tablie par Dominique Stoenesco et est le reflet, par l&rsquo;\u00e9criture, <a href=\"http:\/\/www.memoria-viva.fr\/hommage-aux-deserteurs\/\" target=\"_blank\">des deux jours organis\u00e9s par l&rsquo;association M\u00e9moire Vive\/Mem\u00f3ria Viva en \u00ab\u00a0hommage aux d\u00e9serteurs\u00a0\u00bb<\/a> de la guerre coloniale portugaise (1961-1975). ************************************************************************************* <strong>MANUEL MADEIRA<\/strong> (<em>\u00ab\u00a0J\u00e1 c\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 quem falou\u201d<\/em>, \u00c9d. L\u2019Oeil \u00e9tranger, Paris, 2012) <strong>Aviso a quem n\u00e3o os espera<\/strong> Como avisar aqueles subjugados pela tenta\u00e7\u00e3o de sucumbir a \u201cperigos e guerras esfor\u00e7ados\u201d que continuam obstinados, a lutar por terra e por mar, na doce cegueira de redescobrir novos e ut\u00f3picos para\u00edsos, que nunca existiram, para al\u00e9m da m\u00edtica Taprobana. \u00a0 Honrando bandeiras manchadas de sangue e vulgares emblemas de metal brasonados. \u00a0 Pobres v\u00edtimas de imp\u00e9rios desfalecidos na bruma dos s\u00e9culos. \u00a0 Her\u00f3is de imundos bairros de lata herdeiros de safados mitos bolorentos que lhes vacinam o futuro com a subtil \u201cdioxina\u201d dos hinos \u00e0s grandes descobertas do glorioso povo aventureiro. <strong>Mesmo quando estou c\u00e1, estou l\u00e1<\/strong> <strong>\u00a0<\/strong> Nasci em Estremoz &#8211; alva cidade do Alto Alentejo \u2013 a cinco de Agosto de 1936. \u00a0 Nove anos antes de cair sobre Hiroshima uma bomba at\u00f3mica. \u00a0 A minha inf\u00e2ncia evoca-me um dia de ceifa e de vento Su\u00e3o. \u00a0 Seco e sem p\u00e3o, \u00a0 entretanto: \u00a0 nas oliveiras amadureciam azeitonas e no forno cozia o p\u00e3o. \u00a0 Gra\u00e7as \u00e0s rijas promessas paternas perdi gosro \u00e0 vida e \u00e0 P\u00e1tria \u00a0 &#8211; t\u00e3o habituada a enjeitar os seus filhos \u2013 \u00a0 desprezei o passado glorioso \u00a0 (feito de crimes e de mis\u00e9ria) \u00a0 e fugi l\u00e1 pra fora ganindo como c\u00e3o mal tratado \u00e0 procura de abrigo. <strong>Para mim&#8230;<\/strong> <strong>\u00a0<\/strong> Para mim n\u00e3o houve ouro do Brasil nem especiarias da \u00cdndia nem Algarves de ternuras nem past\u00e9is de nata de Bel\u00e9m \u00a0 Para mim n\u00e3o houve nada, nem ningu\u00e9m&#8230; nem mesmo a ilus\u00f3ria cren\u00e7a do poss\u00edvel regresso do Rei Dom Sebast\u00ed\u00e3o que eu nunca esperei em Bel\u00e9m. <strong>LIBERTO CRUZ<\/strong> (<em>\u201cJornal de campanha\u201d<\/em>, Ed. Peregrina\u00e7\u00e3o, 1986) \u00a0 Meu irm\u00e3o sem armas, meu amigo: aqui te deixo morto, sob esta pedra, como dantes deixavam os velhos. Irremediavelmente. \u00a0 &#8212; \u00a0 Vermelha terra, estranha gente, homens nossos irm\u00e3os. Quando acabar\u00e1 este teatro-em-drama e recolherei a casa? Onde ? Como? Quando? \u00a0 &#8212; \u00a0 J\u00e1 viste um jovem morrer? Acaso esqueceste o brilho dos seus olhos? \u00a0 &#8212; \u00a0 Emigrar, desertar, ou ficar emigrante desertor? \u00a0 &#8212; \u00a0 Onde est\u00e3o os escritores do meu Pa\u00eds, \u00d3 Ant\u00f3nio Nobre, que nada escrevem sobre esta guerra? \u00a0 &#8212; \u00a0 O Furriel: \u201cdizem que em Portugal n\u00e3o h\u00e1 liberdade. \u00c9 mentira. Por exemplo, se aparecer um tipo qualquer na rua a gritar Viva o Salazar, Viva o Salazar, ningu\u00e9m o prendre\u201d. \u00a0 &#8212; \u00a0 Um civil, campe\u00e3o de liberdade, escritor, jornalista e tudo, vendo-me regressar inteiro da guerra: \u201cvoc\u00ea est\u00e1 \u00f3ptimo, n\u00e3o lhe aconteceu nada\u201d. Ser\u00e1 que os manuais n\u00e3o os ensinam a ver por dentro? \u00a0 &#8212; \u00a0 Uma novidade: a partir de agora alguns pais v\u00e3o passar a receber no dia 10 de Junho, no Terreiro do Pa\u00e7o, uma medalha em troca dos filhos. <strong>ANG\u00c9LIA DA ASCENS\u00c3O V. GON\u00c7ALVES PINTO<\/strong> (<em>\u201cAntologia do C\u00edrculo dos Poetas Lus\u00f3fonos de Paris\u201d<\/em>, \u00c9d. Lusophones, Paris, 2004) <strong>Pourquoi? Pour qui?<\/strong> <strong>\u00a0<\/strong> Va faire ton devoir; Vas-y p\u2019tit gars. Apprendre jusqu\u2019au soir \u00c0 \u00eatre un soldat\u00a0? \u00a0 Tu vas partir loin de ta maison, Apprendre le tir, Manier le canon, Un char conduire, Piloter un avion Ou un grand navire\u2026 Tu seras, mon gar\u00e7on, Face \u00e0 l\u2019ennemi\u00a0! Tu feras la guerre\u2026 Pourquoi\u00a0? Pour qui\u00a0? Laissant ton p\u00e8re et ta m\u00e8re\u00a0! \u00a0 La bataille bat son plein, Tu ne fais que tirer\u00a0; Et ton c\u0153ur en ton sein Ne fait que pleurer\u2026 \u00a0 Quel est ce devoir Qui demande de tuer, D\u00e9fendre un territoire Jusqu\u2019\u00e0 ta vie donner\u00a0? Et ta jeune existence Terminant un \u00ab\u00a0beau jour\u00a0\u00bb Tuant l\u2019esp\u00e9rance De vivre dans l\u2019Amour\u00a0! \u00a0 Pour de grandes nations Avides de pouvoir et puissance La vie d\u2019un gar\u00e7on\u00a0: \u00ab\u00a0Quelle est l\u2019importance\u00a0?!\u00a0\u00bb \u00a0 Si au lieu d\u2019armements Ils pouvaient construire Des maisons pour les gens Qui de froid, de faim vont mourir\u2026 <strong>VIRG\u00cdLIO JOAQUIM ANTUNES<\/strong> (\u201cSaudades n\u00e3o pagam d\u00edvidas\u201d, \u00e9d. L\u2019Oeil \u00e9tranger, Paris, 1980) A Il\u00edada do Virg\u00edlio (extraits) \u00a0 A vinte e nove de fevereiro A minha terra abandonei N\u00e3o desejo ao meu inimigo Os mart\u00edrios qu\u2019eu passei &#8230;.. E depois de todos juntos Multiplicou a afli\u00e7\u00e3o Entr\u00e1mos 27 homens Para dentro de um cami\u00e3o &#8230;&#8230; P\u00e3o seco foi o que nos deram E chouri\u00e7o a acompanhar Quem sabe se era de c\u00e3o Que ningu\u00e9m lhe p\u00f4de pegar &#8230;.. Ao sair do cami\u00e3o Quase nem sabia andar Tanto tempo encolhido Deu quase para engamear &#8230;&#8230; Neve com mais d\u2019um palmo d\u2019alto L\u00e1 v\u00e3o os desventurados Subindo e descendo serras Emigrantes desgra\u00e7ados &#8230;.. Seguimos ent\u00e3o o guia E as boas falas que nos deu E numa casa mui grande L\u00e1 para dentro nos meteu &#8230;.. \u00c0s tr\u00eas e meia da tarde A Paris fomos parar Era tal o movimento N\u00e3o conseguimos desembarcar &#8230;&#8230; N\u00e3o julguem qu\u2019em Fran\u00e7a os frangos<sup>*<\/sup> Se apanham no capoeiro \u00c9 num deserto ou a voar Olho vivo e p\u00e9 ligeiro &#8230;.. N\u00e3o \u00e9 abanar uma \u00e1rvore E encher um saco de ca\u00e7a Para arranjar dois tost\u00f5es Sabe Deus o que se passa. \u00a0 <sup>* <\/sup>Jeu de mot avec \u201cfrancos\u201d <strong>JOS\u00c9 TERRA<\/strong> (<em>\u201cObra po\u00e9tica\u201d,<\/em> Jos\u00e9 Terra, Ed. Modo de Ler, Porto, 2014) <strong>Poemas da noite longa<\/strong> 1. Amor! amor!, a caminhada \u00e9 dura E n\u00e3o tem fim este deserto imenso, Em v\u00e3o os olhos tapas com o len\u00e7o E abafas teus suspiros de amargura. \u00a0 Al\u00e9m de mim, de ti, da noite escura Dos teus cabelos, desse abismo intenso Do teu olhar, fica um nevoeiro denso De incertezas, de medos, de tortura. \u00a0 Mas n\u00f3s caminharemos lado a lado, Teu ombro no meu ombro e a fronte erguida, Abrindo nosso peito ao vento norte. \u00a0 Sob as estrelas e o luar vidrado, Semearemos c\u00e2nticos de vida Sobre os campos gelados pela morte. \u00a0 2. Ergueremos pend\u00f5es nas cidadelas, Dos nossos bra\u00e7os fugir\u00e3o revoadas De aves cantando as asas resgatadas, E eu beijarei essas esp\u00e1duas belas. \u00a0 Amansar\u00e1 a raiva das procelas, E falar\u00e3o as pedras das cal\u00e7adas, E as grilhetas e as virgens desfloradas E o mar e a luz e os ventos e as estrelas. \u00a0 E veremos crescer o girassol, Derru\u00edrem castelos de vaidades, Poveiros a saudar o sete-estrelo. \u00a0 Sobre n\u00f3s dois h\u00e1-de raiar o sol, Aos nossos p\u00e9s h\u00e3o-de florir cidades, Cantar\u00e3o rouxin\u00f3is no teu cabelo! <strong>Inseguran\u00e7a<\/strong> Tenho medo de ti, \u00f3 meu irm\u00e3o, Dessas palavras mansas tenho medo, Se at\u00e9 as pedras ouvem o segredo Guardado nos confins do cora\u00e7\u00e3o &#8230; \u00a0 Tenho receio, amor, dessa can\u00e7\u00e3o Que tu me cantas, desse teu enredo Ser\u00e1 teu corpo a nau para o degredo. Teus bra\u00e7os nus a grade da pris\u00e3o? \u00a0 Minha m\u00e3e! minha m\u00e3e! n\u00e3o te confio O meu destino e \u00e9 v\u00e3o esse teu pranto! N\u00e3o trair\u00e1s acaso o filho amado? \u00a0 N\u00e3o me conhe\u00e7o nessa voz que rio, Espreitam-me os assassinos, e, no entanto, \u00c9 um criminoso o que ficar calado! <strong>Juramento<\/strong> <strong>\u00a0<\/strong> Pelos meninos nus que apodreceram Ao frio e \u00e0 fome, \u00e0 boca das aldeias, Pelos mendigos, pelas m\u00e3es plebeias Chorando sobre os filhos que morreram!, \u00a0 Pelos homens sem p\u00e3o que enlouqueceram, Pelos anhos nos dentes de alcateias, Pela raiva que corre em minhas veias, Pelos her\u00f3is que os fornos derreteram!, \u00a0 Pelo meu pensamento agrilhoado, Pelos que choram, pelos que batalham, Pelas crian\u00e7as rotas na orfandade!, \u00a0 Pelo direito do homem esmagado, Pelos que sofrem, pelos que trabalham, &#8211; Eu gritarei teu nome, \u00f3 Liberdade! <strong>ANT\u00d3NIO TOPA<\/strong> (<em>\u201cO fio da palavra\u201d<\/em>, Ed. ACAP 77, Dammarie-les-Lys, 1993) <strong>Da palavra<\/strong> <strong>\u00a0<\/strong> A palavra subtil me limita e me transcende \u00e9 minha enxada \u00e9 meu p\u00e3o e \u00e9 meu canto \u00a0 a palavra dia a dia mais concreta vai subindo \u00e9 andaime quase estrutura mais andaime \u00e9 edif\u00edcio \u00a0 ou \u00e9 caminho de fuga a palavra que me d\u00f3i hoje degredo amanh\u00e3 esperan\u00e7a <strong>O futuro<\/strong> <strong>\u00a0<\/strong> vou por dentro da noite despenteado nu \u00a0 sorrio dou a m\u00e3o \u00e0s estrelas enquanto caminho e como laranjas \u00a0 mas n\u00e3o vou s\u00f3 \u00a0 comigo v\u00e3o sombras e vozes <strong>Ouvindo uma m\u00e3e no casamento<\/strong> <strong>do seu \u00faltimo filho emigrante no Luxemburgo<\/strong> <strong>\u00a0<\/strong> Amar os campos e o homem parir os filhos para o estrangeiro e \u00a0 esperar que a terra se abra para enterrar o que resta. <strong>Lugar de guerra<\/strong> <strong>\u00a0<\/strong> <em>\u201cLes mois ne sont pas longs<\/em> <em>ni les jours ni les nuits.<\/em> <em>C\u2019est la guerre qui est longue\u00a0\u00bb. <\/em> <em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/em> <em> Apollinaire<\/em> <em>\u00a0<\/em> <em>\u00a0<\/em> 1. entre espadas altas sombras um lugar de guerra um lugar de morte lentamente pelo corpo \u00a0 2. dois s\u00e3o os pulsos abertos em cada navio pelo mar dois s\u00e3o os olhos de pedra vendo os vivos amigos tecendo suas l\u00e1grimas como cordas grossas cordas e com os cabelos em chamas \u00a0 3. chegam cartas e s\u00e3o facas pelas art\u00e9rias do sonho tiros violentamente sobre a barriga da paz \u00a0 chegam cartas v\u00e3o navios e \u00e9 tempo de cantar erguendo a voz e os punhos contra esta capa de sono contra esse c\u00e9u coberto de armas \u00a0 chegam cartas caix\u00f5es navios soldados que foram homens v\u00eam hirtos e de cal trazem os olhos furados \u00a0 quem os conhece amigos os amigos agora de sil\u00eancio e cal? <strong>Hist\u00f3rias da hist\u00f3ria<\/strong> <strong>\u00a0<\/strong> Ontem hoje quem a hist\u00f3ria faz sabe-lhe o amargo gosto \u00a0 ontem hoje pedalando pedalando pesadas bicicletas de sono e \u00f3dio dos carvalhos para o porto \u00a0 ontem hoje \u00e0s quatro ou \u00e0s cinco da manh\u00e3 pedalando pedalando dos carvalhos para o porto ou de grij\u00f3 ou de sandim pedalando pedalando pesadas bicicletas de sono e \u00f3dio ou a p\u00e9 carregando a vida e a marmita carregando o \u00f3dio \u00a0 ontem hoje pesados comboios atravessando a espanha para alimentar as f\u00e1bricas da europa e no metro de paris carregando um sonho antigos camponeses ontem \u00a0 hoje oper\u00e1rios apressados que a ind\u00fastria e a europa reclamam e trituram \u00a0 ontem hoje paris pa\u00eds prolet\u00e1rio \u00e9 j\u00e1 a p\u00e9 quando se deitam os senhores \u00a0 ontem hoje paris camponeses do minho ou da beira-baixa n\u00e3o de enxada \u00e0s costas nem pedalando pesadas bicicletas de sono e \u00f3dio mas correndo correndo loucamente atr\u00e1s dum sonho antigo ou do primeiro metro que l\u00e1 vem arrastando triturando outros homens outros sonhos \u00a0 ontem hoje do minho a paris quem a hist\u00f3ria faz sabe-lhe o amargo gosto \u00a0 ontem hoje quem estas pedras levanta e em sil\u00eancio come as pedras que levanta sabe o gosto e o amargo da hist\u00f3ria \u00a0 ontem hoje mas hoje amanh\u00e3 amanh\u00e3 futura muralha de gente invenc\u00edvel caminhando com for\u00e7a e alegria ao assalto do c\u00e9u \u00a0 amanh\u00e3 hoje.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cette s\u00e9lection de po\u00e8mes a \u00e9t\u00e9 \u00e9tablie par Dominique Stoenesco et est le reflet, par l&rsquo;\u00e9criture, des deux jours organis\u00e9s par l&rsquo;association M\u00e9moire Vive\/Mem\u00f3ria Viva en \u00ab\u00a0hommage aux d\u00e9serteurs\u00a0\u00bb de la guerre coloniale portugaise (1961-1975). ************************************************************************************* MANUEL MADEIRA (\u00ab\u00a0J\u00e1 c\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 quem falou\u201d, \u00c9d. 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