{"id":1574,"date":"2015-12-18T12:57:50","date_gmt":"2015-12-18T11:57:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.memoria-viva.fr\/?p=1574"},"modified":"2015-12-18T12:59:49","modified_gmt":"2015-12-18T11:59:49","slug":"joaquim-palminha-silva-1945-2015","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.memoria-viva.fr\/mv2-archives\/?p=1574","title":{"rendered":"JOAQUIM PALMINHA SILVA (1945-2015)"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">Faz hoje um m\u00eas que faleceu no hospital de \u00c9vora Joaquim Maria Palminha Silva. No dia seguinte, debaixo dum sol espl\u00eandido e frio, foi a sepultar no cemit\u00e9rio dos Rem\u00e9dios, na entrada ocidental da cidade, essa mesma que ele tantas vezes visitava \u00e0 procura das marcas pr\u00f3ximas da sua inf\u00e2ncia. Antes houve missa de corpo presente numa daquelas igrejas soturnas e barrocas da cidade, t\u00e3o sombrias e desoladas, a de S\u00e3o Tiago, com uma homilia aceit\u00e1vel para um homem que, n\u00e3o recusando o evangelho que recebera na inf\u00e2ncia, castigava com o riso a dogm\u00e1tica da Igreja. O ponto emocionante foi por\u00e9m o instante em que dois familiares se adiantaram para cantarem a conhecida m\u00fasica de Jacques Brel, \u201cNe me quitte pas\u201d em homenagem ao homem que partia para sempre.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Joaquim Palminha Silva, nascido em \u00c9vora a 16 de Outubro de 1945, estudou nos Salesianos desta cidade, escola e institui\u00e7\u00e3o \u00e0 qual viria a dedicar um dos seus conscienciosos estudos hist\u00f3ricos, e desde cedo se mostrou um \u00e1gil publicista adverso \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. As suas simpatias iam ent\u00e3o para o Partido Comunista Portugu\u00eas. Come\u00e7ou por escrever numa folha eborense, Democracia do Sul, cuja hist\u00f3ria est\u00e1 ainda por fazer, mas logo passou aos jornais lisboninos assinando artigos e notas nas p\u00e1ginas do Di\u00e1rio de Lisboa e do Rep\u00fablica, onde conheceu Francisco Quintal, com quem mais tarde far\u00e1 amizade pr\u00f3xima. Incorporado no ex\u00e9rcito em 1966 e mobilizado para a Guin\u00e9 em 1967, Palminha Silva opta por desertar, entrando em ruptura indefect\u00edvel com o Partido, cuja pol\u00edtica era contr\u00e1ria \u00e0 deser\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Sem apoio pol\u00edtico, sem pap\u00e9is, isolado e procurado pelas autoridades militares e civis, vive cerca de meio ano clandestino numa pens\u00e3o pobre do Bairro Alto, at\u00e9 que em Junho de 1968 consegue passar a salto para Fran\u00e7a, numa fuga inaudita que ele avaliava a rir como o lance mais romanesco da sua vida \u2013 f\u00e9rtil em inenarr\u00e1veis transes rocambolescos. Em Paris, onde conviveu com Jo\u00e3o Freire, Hip\u00f3lito dos Santos, Jos\u00e9 Maria Carvalho Ferreira e tantos outros, sequioso de ac\u00e7\u00e3o, ingressou na LUAR, de que se tornou operacional a tempo inteiro. Lastima-se apenas que mais tarde, nos anos de sossego que ainda gozou, n\u00e3o tenha escrito o memorial desses tempos t\u00e3o ricos de ac\u00e7\u00e3o, de encontros, de lances caricatos e aventurosos, que dariam na verve saborosa da sua pena p\u00e1ginas viv\u00edssimas e cheias de humor.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Com o golpe militar de Abril e a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, Palminha Silva regressa a Portugal, acabando por cumprir o servi\u00e7o militar em falta em Angola e concluindo o curso de Hist\u00f3ria na Faculdade de Letras de Lisboa. Ingressa ent\u00e3o no Minist\u00e9rio dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, e nessa qualidade faz v\u00e1rias investiga\u00e7\u00f5es, uma dedicada \u00e0 actividade consular de E\u00e7a de Queiroz em Havana, at\u00e9 que transita para a administra\u00e7\u00e3o regional a pedido do munic\u00edpio de Cuba, no Baixo Alentejo, onde se dedicou ao estudo e \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o do escritor Fialho de Almeida. Fundou nessa \u00e9poca com outros cubenses a associa\u00e7\u00e3o cultural \u201cFialho de Almeida\u201d, que publicou dois admir\u00e1veis boletins e ainda hoje existe por porfiados esfor\u00e7os da Professora Francisca Bicho.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Reformado da administra\u00e7\u00e3o regional, regressou \u00e0 cidade natal, onde fez estudos locais invulgares, como esse trabalho que dedicou \u00e0s marcas esot\u00e9ricas dos monumentos de \u00c9vora, num livro singular, pensado e escrito ao arrepio de modas, que titulou \u00c9vora Oculta. O seu esp\u00f3lio, riqu\u00edssimo de notas sobre a cidade, s\u00f3 compar\u00e1vel ao de T\u00falio Espanca, foi doado h\u00e1 anos ao Munic\u00edpio de \u00c9vora, sem que este, ao que entendi, se desse sequer ao trabalho de se fazer representar na sua despedida. Ai a gratid\u00e3o humana \u00e9 t\u00e3o pouco exemplar!<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Tive a felicidade de beneficiar ainda do conv\u00edvio e do conselho deste homem mais velho uma gera\u00e7\u00e3o. Depois do 25 de Abril foi colaborador regular da imprensa libert\u00e1ria e recordo-o, de gab\u00e3o largo e palavra f\u00e1cil, na d\u00e9cada de 80 do s\u00e9culo passado num encontro da revista A Ideia. Um estudo seu, sobre a figura do Mafarrico na cultura oral portuguesa, tema dilecto dele, acaba de ser publicado no n\u00famero 75\/76 d\u2019 A Ideia; pouco antes de falecer, j\u00e1 irremediavelmente doente, ainda me entregou para publica\u00e7\u00e3o novo estudo, mais uma vez sobre as marcas do Diabo na cultura popular, que ter\u00e1 sido dos \u00faltimos que escreveu e que em sua homenagem a revista dar\u00e1 a lume no ano de 2016.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>Ant\u00f3nio C\u00e2ndido Franco<\/b><\/div>\n<div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\u00c9vora, 15 Dezembro de 2015<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.cincotons.com\/2015\/12\/joaquim-palminha-silva-1945-2015.html\" target=\"_blank\">Publicado no blog cincotons<\/a><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faz hoje um m\u00eas que faleceu no hospital de \u00c9vora Joaquim Maria Palminha Silva. 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