{"id":1577,"date":"2016-01-06T18:12:02","date_gmt":"2016-01-06T17:12:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.memoria-viva.fr\/?p=1577"},"modified":"2016-01-06T18:12:02","modified_gmt":"2016-01-06T17:12:02","slug":"a-construcao-da-imagem-do-bom-trabalhador-portugues-em-franca-par-ines-espirito-santo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.memoria-viva.fr\/mv2-archives\/?p=1577","title":{"rendered":"A constru\u00e7\u00e3o da imagem do \u201cbom trabalhador\u201d portugu\u00eas em Fran\u00e7a par In\u00eas Espirito Santo"},"content":{"rendered":"<p>Nos anos 1960 e no in\u00edcio dos anos 1970, Portugal testemunhou um dos maiores movimentos populacionais de sa\u00edda do pa\u00eds. Cerca de 700 000 portugueses chegaram a Fran\u00e7a nesses anos[1]. Nos anos onde esse fluxo foi mais intenso, mais de dois ter\u00e7os dessas pessoas sa\u00edram do pa\u00eds clandestinamente, cuja viagem ficou conhecida pelo nome o \u201cSalto\u201d, perigo do trajeto e pelas m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de alojamento nos <em>bidonvilles<\/em> \u00e0s portas de Paris. Ainda assim a inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho franc\u00eas nesse per\u00edodo foi facilitada pela conjuntura socioecon\u00f3mica favor\u00e1vel da Fran\u00e7a, encontr\u00e1vamo-nos ent\u00e3o no auge dos chamados \u201cTrinta Gloriosos\u201d. Segundo alguns testemunhos de emigrantes chegados a Fran\u00e7a nesses anos [2], recrutadores com propostas de trabalho esperavam os portugueses na fronteira logo que estes pisavam territ\u00f3rio franc\u00eas.<\/p>\n<p>Atualmente, segundo os \u00faltimos dados dispon\u00edveis, 599 333 pessoas nascidas em Portugal residem em Fran\u00e7a [3]. Destes, a popula\u00e7\u00e3o ativa tem uma taxa de desemprego bastante baixa quando comparada com outras nacionalidades nesse pa\u00eds. A imagem do portugu\u00eas imigrante que se investe sobremaneira no seu trabalho \u00e9 aceite como caracter\u00edstica coletiva da popula\u00e7\u00e3o imigrante portuguesa em Fran\u00e7a, tornando-se um dos referentes a partir dos quais os portugueses elaboram e falam do seu trajeto migrat\u00f3rio em compara\u00e7\u00e3o com outros trabalhadores. Um retrato socioprofissional representativo da popula\u00e7\u00e3o portuguesa \u00e9 facilmente singularizado na paisagem francesa, cujas caracter\u00edsticas principais s\u00e3o um n\u00edvel de escolariza\u00e7\u00e3o muito baixo e uma inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho muito segmentada em termos de g\u00e9nero e de sectores de atividade, situados na cauda da escala socioprofissional francesa. Esta inser\u00e7\u00e3o profissional e chegada maci\u00e7a ao territ\u00f3rio franc\u00eas nos anos 1960\/70 encontra-se no \u00e2mago de todos os processos de constru\u00e7\u00e3o das imagens \u00e0s quais a emigra\u00e7\u00e3o portuguesa se encontra associada em Fran\u00e7a, mas ela n\u00e3o constitui o \u00fanico fator explicativo. Certas institui\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s do seu papel na sociedade, mas tamb\u00e9m pela influ\u00eancia que exercem sobre o poder pol\u00edtico em mat\u00e9ria de imigra\u00e7\u00e3o, contribuem na modela\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os representacionais e, consequentemente, na orienta\u00e7\u00e3o de certas pr\u00e1ticas. \u00c9 o caso do discurso do patronato franc\u00eas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o estrangeira.<\/p>\n<p>Convocar as fontes do passado, explorando por exemplo arquivos da <em>Conseil National du Patronat Fran<\/em><em>\u00e7<\/em><em>ais<\/em> (CNPF) [4] pode dar algumas pistas de compreens\u00e3o sobre a constru\u00e7\u00e3o de imagens dos portugueses trabalhadores em Fran\u00e7a. Atrav\u00e9s de um discurso menos fraturante do que o discurso de algumas inst\u00e2ncias governamentais que diferenciavam numa l\u00f3gica divisionista os imigrantes segundo uma suposta melhor capacidade de integra\u00e7\u00e3o dos portugueses em rela\u00e7\u00e3o aos argelinos, o CNPF deu uma aten\u00e7\u00e3o especial aos portugueses a partir da quest\u00e3o do alojamento. Este interesse ganhou for\u00e7a com a pol\u00e9mica que se gerou no in\u00edcio dos anos 1970 em torno da insalubridade dos alojamentos dos portugueses e, sobre a qual a opini\u00e3o publica apelava \u00e0 responsabilidade do patronato quanto \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de habita\u00e7\u00e3o dos trabalhadores imigrantes.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o dos imigrantes portugueses nos <em>bidonvilles<\/em> \u00e0s portas de Paris, embora representasse apenas uma parte dessa popula\u00e7\u00e3o, inspirou a argumenta\u00e7\u00e3o do CNPF de uma forma particular: os imigrantes portugueses em raz\u00e3o de dispositivos psicol\u00f3gicos preferiam condi\u00e7\u00f5es med\u00edocres de alojamento em detrimento de investir mais dinheiro na habita\u00e7\u00e3o para melhor\u00e1-las. O conceito \u201cpoupan\u00e7a\u201d, caracter\u00edstica por excel\u00eancia desta popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deixava assim lugar a nenhuma outra considera\u00e7\u00e3o mais material, tal como o problema dos baixos sal\u00e1rios e rendas altas, ou ainda a dificuldade de acesso ao processo administrativo de pedido de alojamento social.<\/p>\n<p>Tanto o \u201cregresso\u201d como a \u201cpoupan\u00e7a\u201d, constituem um vocabul\u00e1rio que \u00e9 sistematicamente associado \u00e0 exist\u00eancia do imigrante, em virtude da sua estadia supostamente provis\u00f3ria no territ\u00f3rio nacional [5]. No caso da imigra\u00e7\u00e3o portuguesa, a poupan\u00e7a ocupou um espa\u00e7o importante, incluindo nas ci\u00eancias sociais, tornando-se o fator explicativo, por vezes absoluto, das condi\u00e7\u00f5es de vida e comportamentos dos trabalhadores imigrantes portugueses. O termo \u201cpoupan\u00e7a\u201d desdobra-se numa dupla significa\u00e7\u00e3o: as \u201ceconomias\u201d feitas \u00e0 custa de um mau alojamento e ao princ\u00edpio de vida \u201ctrabalhar mais para ganhar mais\u201d. O imigrante portugu\u00eas estaria pronto a sacrificar o seu bem-estar, submetendo-se incansavelmente ao trabalho, sem hor\u00e1rios. Com o fim da \u00e9poca do pleno emprego, as diretivas, o recrutamento e as pol\u00edticas diferencialistas entre popula\u00e7\u00f5es estrangeiras acentuaram-se: mais que trabalhador era necess\u00e1rio ser \u201cbom trabalhador\u201d para guardar o seu lugar na estrutura socioprofissional francesa. Esta engrenagem construiu-se pela demonstra\u00e7\u00e3o de uma perten\u00e7a coletiva em oposi\u00e7\u00e3o a supostos tra\u00e7os culturais das diferentes popula\u00e7\u00f5es, estando sobretudo associada \u00e0 gest\u00e3o discriminat\u00f3ria da m\u00e3o-de-obra nos sectores de atividade com uma percentagem elevada de imigrantes.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre dif\u00edcil restituir em toda a sua complexidade o caminho que leva \u00e0 legitima\u00e7\u00e3o da imagem de uma popula\u00e7\u00e3o. As pistas avan\u00e7adas tornam menos opacos os canais de difus\u00e3o atrav\u00e9s das quais a imagem do \u201cbom trabalhador\u201d portugu\u00eas em Fran\u00e7a se difundiu e quais foram as condi\u00e7\u00f5es que a autorizaram. Elas permitem subtrair a qualidade do \u201cbom trabalhador\u201d ao lugar comum culturalista, segundo a qual a boa performance dos trabalhadores portugueses no trabalho seria profundamente ancorada na sua cultura. Perante as representa\u00e7\u00f5es dominantes, para aqueles que trabalham no sector da constru\u00e7\u00e3o ou para aquelas que trabalham no sector dos servi\u00e7os dom\u00e9sticos, a imagem do \u201cbom trabalhador\u201d tem um sentido pr\u00e1tico profissional. \u00c9 tamb\u00e9m nestes meios profissionais que as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e a concorr\u00eancia com outros trabalhadores imigrantes \u00e9 mais exacerbada, conduzindo \u00e0 representa\u00e7\u00e3o do papel que lhes \u00e9 concedido.<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>[1] Recenseamento da popula\u00e7\u00e3o em Fran\u00e7a, 1975. A Fran\u00e7a torna-se assim o primeiro destino da emigra\u00e7\u00e3o portuguesa em detrimento do Brasil que foi durante muito tempo o destino privilegiado. Segundo o recenseamento da popula\u00e7\u00e3o em Fran\u00e7a de 1975, os portugueses representavam 22% da popula\u00e7\u00e3o estrangeira em Fran\u00e7a, situando-se em frente dos argelinos que representavam nessa \u00e9poca 20%.<\/p>\n<p>[2] Esp\u00edrito Santo, I. (2013), <em>Du clandestin au citoyen europ<\/em><em>\u00e9<\/em><em>en. Quand les immigr<\/em><em>\u00e9<\/em><em>s portugais font figure de travailleurs, France 1962 <\/em><em>\u2013<\/em> <em>2012<\/em>, Tese de doutoramento da \u00c9cole des Hautes \u00c9tudes en Sciences Sociales, Paris.<\/p>\n<p>[3] Recenseamento da popula\u00e7\u00e3o em Fran\u00e7a, 2012. Fonte Observat\u00f3rio da Emigra\u00e7\u00e3o: &lt;http:\/\/observatorioemigracao.pt&gt;<\/p>\n<p>[4] O <em>Conseil National du Patronat Fran<\/em><em>\u00e7<\/em><em>ais<\/em> (CNPF) foi criado em 1945 e tornou-se o <em>Mouvement des Entreprises de France<\/em> (MEDEF) em 1997.<\/p>\n<p>[5] Sayad, A. (2006), L\u2019immigration ou Les paradoxes de l\u2019alterit\u00e9 : Tome 1, L\u2019illusion du provisoire, Paris: Raisons d\u2019agir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Texte originellement publi\u00e9 dans le blog barometro : http:\/\/barometro.com.pt\/archives\/2051<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos anos 1960 e no in\u00edcio dos anos 1970, Portugal testemunhou um dos maiores movimentos populacionais de sa\u00edda do pa\u00eds. Cerca de 700 000 portugueses chegaram a Fran\u00e7a nesses anos[1]. 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